Suportes expandidos na arte: notas a partir de duas experiências
- Ivy Lemes

- há 5 dias
- 4 min de leitura
Poucas decisões foram tão importantes quanto a de libertar minha arte dos suportes e materiais tradicionais. Não existem palavras para descrever o que sinto ao ter nas mãos os tecidos, os fios e cordões, as bolinhas de resina e os canutilhos. Menos ainda para nomear o que transborda quando combino esses objetos às telas e tintas. No caos da minha mente e do meu coração, há anos em busca de um caminho, as coisas começam a fazer sentido.
O parágrafo que abre este texto foi escrito em março de dois mil e vinte e cinco, enquanto eu fazia os primeiros trabalhos com tecidos e fios para materializar a integração entre arte e moda, ainda sem nomear essa prática. Em dois mil e vinte e seis, um ano depois, experienciei a arte expandida de duas formas e, mais que ampliar meu repertório, esses encontros trouxeram reflexões sobre técnicas e/ou suportes expandidos, seus princípios e significados e também sobre a minha própria produção, que caminhou naturalmente para o “território da expansão”.
Fotografia expandida
A ideia de interferir na captura do real e o desejo de explorar novas técnicas me levaram à oficina de fotografia expandida, mediada pela artista visual Hanna Torquato, no Museu Oscar Niemeyer. As obras de Julia Kater e Danny Bittencourt, além dos trabalhos autorais de Hanna Torquato, conduziram a primeira parte da oficina, na qual compreendemos o amplo conceito da “fotografia expandida” (ou fotografia híbrida).
Examinar as criações dessas artistas revela incontáveis possibilidades de intervenção sobre a fotografia. Kater, por exemplo, utiliza a subtração de elementos e o deslocamento para reconstruir a imagem primária, enquanto Bittencourt desenvolve sua fotografia híbrida também como obra temporária: terra e outros materiais podem interagir com o suporte de forma provisória e livre, refazendo-se ou desfazendo-se tempo depois.
Na fotografia, a artista parte do entendimento de que toda imagem é, por definição, um fragmento — um enquadramento que recorta e isola uma parte da cena. Em sua obra, a imagem não é apenas um registro de um instante, mas resultado de um deslocamento — algo que se desfaz e se recompõe no mesmo gesto.
Trecho retirado do site da galeria Simões de Assis, sobre a obra de Julia Kater.
Na parte prática da oficina, materiais tradicionais de arte e matéria orgânica estavam disponíveis para experimentações fixas ou transitórias. Inspirada pelos recortes e pela tridimensionalidade da obra de Julia Kater, busquei interferir em meu autorretrato por meio de supressões, deslocamentos e tecidos e, conceitualmente, trabalhei oposições. Dentro e fora, luz e sombra, preto e branco influenciaram também a escolha dos materiais laminados, com superfícies translúcidas ou vazadas, a fim de construir uma imagem suspensa entre o instável e o mutável, visto que a luminosidade pode alterar sutilmente a “arte final”.
Vídeo expandido
Sobreposição e instabilidade são características da obra de Eder Santos, artista que atua na videoarte desde 1980. Por meio de diferentes mídias e tecnologias, do analógico ao digital, Santos explora imagem, som, espaço e corpo, em atrito ou em comunhão. Na mostra “A Imagem Não Serve”, imagens voláteis, fragmentadas e sobrepostas compõem mensagens potentes e imperecíveis sobre radiografias, gaiolas, mobiliários e outros suportes. Extravasando as colagens produzidas para projeção, o artista utiliza o “vídeo como campo expandido” ao criar instalações, adicionando ao vídeo objetos que interferem nas imagens de forma oscilante, a depender da luz, do espaço e do ângulo de visão do observador.
Elementos de sentido ambíguo fortalecem a produção de Eder Santos como “uma prática que não busca harmonia nem conciliação” e sublinham o significado de expansão na forma e no conteúdo. Em Janaúba (1993), por exemplo, a paisagem de Minas Gerais é protegida e cortada pelo arame farpado, que fortalece e transforma a obra. Já na série Ex-Votos (2010), que utiliza radiografias como tela de projeção, as interferências sobre imagens de estruturas internas do corpo físico provocam reflexões sobre as diferentes dimensões do ser e sua relação com a ciência e a fé.
O que é fixo
O trânsito por novas técnicas é essencial para a criatividade, e interagir com as possibilidades de reconfiguração da imagem, através da fotografia e do vídeo expandidos, traz outras formas de observar e de criar. No entanto, se, por um lado, a fotografia expandida e as videoinstalações traduzem movimento e impermanência, há um eixo fixo em produções artísticas sólidas: a identidade do artista.
Entender como, o que e quando “fixar” sustenta essa identidade, que se revela na recorrência da cartela de cores, na escolha dos materiais ou em formas que retornam. A prática na oficina de fotografia expandida colocou luz em como diferentes caminhos propostos convergiram inevitavelmente para minha identidade. As repetições intuitivas de elementos, materiais e temas imprimem a individualidade do artista em sua produção, independentemente de material ou técnica.
Silenciosamente, subjetividade e repertório nos preenchem com “algo fixo” e permanente, que pode ser lapidado, mas não apagado. Especialmente na mostra “A Imagem Não Serve”, é evidente que a arte ganha força com a identidade do autor ao retratar, de modo único, temas universais, como o corpo físico e suas relações com o sagrado e com a angústia. Indo além, a subjetividade também pode ser expandida quando a arte é produzida pelo movimento do próprio corpo ou tendo-o como instrumento, como na obra de Alice Anderson, tema do próximo texto, onde continuarei compartilhando minhas percepções sobre criação e expansão.

















Comentários